Humaitá e as histórias que ainda estão por nascer
Existe uma coisa curiosa em chegar a uma cidade e descobrir que ela tem uma história que, de alguma maneira, conversa com aquilo que você veio fazer ali.
Humaitá é conhecida como a Terra da Mangaba. Fica no sul do Amazonas, às margens do Rio Madeira, e ocupa uma posição importante na geografia da região. Por aqui passam caminhos que conectam diferentes partes da Amazônia, como a Transamazônica e a BR-319. O município também tem sua relação com o rio, que durante muito tempo foi uma das principais vias de circulação de pessoas, mercadorias e histórias.
Mas foi outra característica da cidade que me chamou a atenção: Humaitá também é conhecida como um dos berços da literatura amazonense.
E não é apenas uma maneira bonita de apresentar o município. Existe uma história por trás disso. Foi na região de Humaitá que o escritor português Ferreira de Castro começou a construir sua trajetória literária, depois de trabalhar no seringal Paraíso. Mais tarde, ele escreveria A Selva, romance inspirado nas experiências vividas na Amazônia e que se tornaria uma das obras mais conhecidas sobre a vida nos seringais.

A relação da cidade com a literatura é tão significativa que, em 1905, foi inaugurada a Biblioteca Municipal José Maria Ferreira de Castro, em homenagem ao escritor. O espaço chegou a ser considerado uma das bibliotecas mais importantes do país. Depois de um período de restauração, o prédio histórico voltou a integrar a memória cultural da cidade.
Fiquei pensando nisso enquanto acompanhava o primeiro dia de atividades do Amazônia das Palavras na Escola Estadual Governador Plínio Ramos Coelho, a conhecida GM3. Afinal, existe uma certa simbologia em levar um projeto de incentivo à leitura justamente a um lugar que tem uma história tão ligada aos livros e à literatura.
Mas a história não pode ficar parada nas estantes. Uma cidade pode ter escritores importantes, bibliotecas históricas e um passado literário respeitado. Ainda assim, é preciso criar condições para que novas pessoas se aproximem da leitura, descubram o prazer de escrever e percebam que também podem produzir suas próprias histórias.
Foi um pouco disso que vi nas oficinas.
Uma delas, conduzida pelo cineasta Marcelo Ikeda. A proposta era apresentar aos estudantes outras possibilidades de enxergar e fazer cinema. Em vez de restringir a conversa às grandes produções, aos efeitos especiais e aos filmes que estamos acostumados a assistir, Marcelo apresentou uma ideia muito mais próxima da realidade dos alunos: a possibilidade de fazer cinema com o próprio celular.

Em determinado momento, ele falou sobre a ideia de usar o aparelho como uma espécie de diário, registrando um minuto do cotidiano todos os dias.Contar uma história também começa por prestar atenção ao que acontece ao nosso redor. E isso não exige necessariamente uma câmera profissional, assim como escrever não exige que alguém tenha publicado um livro.
A literatura não pertence apenas aos escritores que já têm seus nomes nas bibliotecas. O cinema não pertence apenas aos grandes estúdios. As histórias estão por aí, nas ruas, nas casas, nas lembranças e na vida de cada estudante que participou das atividades.
A própria escola parece compreender a importância disso. Esta é a terceira vez que a GM3 recebe o Amazônia das Palavras. O projeto não chega para ensinar uma cidade a ter história. Humaitá já tem as suas. Chega para criar encontros, oferecer ferramentas e estimular que outras histórias sejam contadas. Algumas talvez apareçam primeiro em um caderno, outras em um vídeo feito pelo celular, em uma música ou até em uma conversa que começa dentro da sala de aula.
E quem sabe, daqui a alguns anos, algum estudante que participou dessas oficinas não esteja também escrevendo seu próprio livro?
Seria uma boa maneira de continuar essa história.
Texto e fotos: João Alves – Jornalista


