Anori (AM) – Estamos a navegar
Chegamos em Anori pela manhã. O clima já era diferente das outras cidades. O sol parecia abraçar a gente. E a cidade nos acolheu quase desse mesmo jeito, com calor humano, conversa próxima e portas abertas.
Logo nas primeiras horas do dia, Julia e eu saímos pelas ruas tentando fazer o projeto circular antes mesmo de começar oficialmente. Conversamos com o vice-prefeito, buscamos apoio, fomos atrás das rádios, articulamos divulgação. Cidade pequena tem disso: as coisas acontecem muito mais na base do contato direto, da conversa olho no olho. Não há emissora local, não há grande estrutura. Há gente. E, no fim, quase tudo depende disso.
Mas há uma coisa em mim que vem crescendo durante essa viagem.
A maneira como nós nos colocamos fora da natureza.
É curioso perceber isso. Quando falamos em natureza, quase sempre falamos como se estivéssemos separados dela. Como se ela fosse um cenário e nós, espectadores. Como se o rio, a floresta, a chuva, o calor e o tempo fossem coisas externas à nossa própria condição humana.
Mas nós também somos natureza.
Existe uma resistência enorme em compreender que fazemos parte desse organismo vivo chamado planeta. E talvez por isso a humanidade tenha aprendido tão rápido a explorar o mundo, enquanto continua tão despreparada para compreender a si mesma.
Drummond escreveu isso com uma precisão assustadora em O Homem; as Viagens:
“Restam outros sistemas fora
do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração,
experimentar,
colonizar,
civilizar,
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.”

Conviver.
Viver com.
Com o outro. Com aquilo que sentimos. Com as nossas contradições. Com o mundo ao redor. Com a natureza da qual fazemos parte, ainda que insistamos em agir como se estivéssemos separados dela.
Porque, embora o Amazônia das Palavras fale sobre literatura, educação, arte, cinema, música e sustentabilidade, o que existe por trás de tudo isso é uma tentativa de formação humana.
Quando plantamos uma muda de pau-brasil, quando uma oficina provoca um estudante a escrever, quando alguém descobre uma palavra nova, quando uma criança vê um espetáculo e ri, não estamos apenas oferecendo atividades. Estamos criando condições para que alguma coisa dentro dessas pessoas também cresça.
Literatura não é somente literatura.
Arte não é somente arte.
Educação não é somente conteúdo.
São ferramentas para acessar aquilo que existe de mais humano em nós. Esse território interno que tanta gente passa a vida inteira sem conseguir visitar.
A verdadeira navegação que estamos fazendo com o Amazônia das Palavras é para dentro de nós mesmos.
Textos e fotos: João Alves


