Coari (AM) – Primeiro dia de programação
Primeiro dia de programação é sempre um exercício de síntese. É quando tudo aquilo que foi planejado encontra a realidade. Nesse encontro, a gente entende o que precisa ajustar, refinar, reorganizar. Nada foge totalmente do roteiro, mas também nada passa por ele intacto.
O dia começou cedo. Bem cedo. Café da manhã ainda com o corpo pedindo mais alguns minutos de rede, e logo depois o deslocamento até a escola. Às 7h, já estávamos na Escola Estadual Prefeito Alexandre Montoril. A partir dali, o tempo deixou de ser nosso e passou a seguir o ritmo das oficinas, das salas cheias, das conversas, das descobertas.

Enquanto os oficineiros conduziam as atividades, eu e o time de comunicação nos espalhamos pelos corredores, salas e pátio. Captar, ouvir, observar. Entre uma entrevista e outra, a sensação era de que sempre havia mais acontecendo do que a gente conseguia registrar.
Omena e Mayson, responsáveis pelas imagens do documentário desta edição, já davam o tom da equipe. Figuraças. Disputam espaço nas palhaçadas com o próprio Xuxu. Dayrel, social mídia do projeto, seguia firme nas redes sociais, atento a cada detalhe que pudesse virar registro daquele dia.
Em um dos momentos, saímos da escola para acompanhar a rotina de uma aluna. Fomos até a casa dela, tentando entender o caminho que existe entre a vida cotidiana e o encontro com o projeto. É nesse trajeto, e não só dentro da sala de aula, que as histórias realmente começam.
Pausa para o almoço, retorno ao barco, e poucos minutos depois, de volta à escola. A tarde seguiu com mais oficinas, novas conversas e imprensa local acompanhando de perto. O dia avançava, mas a programação parecia não perder fôlego.
No meio dessa engrenagem toda, veio um convite inesperado: assumir o papel de mestre de cerimônias da programação da noite. Uma loucura, no melhor sentido. Já tive outras experiências conduzindo eventos, mas algo dessa magnitude, com esse contexto, com esse público, era a primeira vez. Topei.
No intervalo antes da noite, uma parada estratégica: o lanche. E aqui vale o registro: Seu Clóvis, o chefe de cozinha da embarcação, definitivamente não veio para brincar. Há uma certa tranquilidade em saber que, entre uma travessia e outra, existe sempre uma mesa bem servida nos esperando.

À noite, a escola se transforma. O espaço que durante o dia foi de aprendizado ganha outra atmosfera. A comunidade chega, se aproxima, ocupa. E então entra em cena ele: o Palhaço Xuxu.
Luiz Carlos Vasconcelos, que o interpreta, é um ator mesmo, e talvez essa seja a forma mais simples e precisa de dizer tudo. Porque ele se transforma. Luiz, fora de cena, é contido, tranquilo, quase silencioso. Xuxu não. Xuxu provoca, brinca, tensiona, ri da gente e com a gente. Outra presença. Outra energia.
A arte faz isso mesmo. Ela desloca. Cria em nós uma força que não se explica com facilidade, mas que se sente com muita clareza. Algo que atravessa o dia inteiro e encontra, ali, no riso, no silêncio e no olhar do público, uma forma de existir.
O primeiro dia termina com essa sensação de movimento contínuo. De ajustes sendo feitos enquanto tudo acontece. De uma engrenagem que começa a encontrar seu próprio ritmo.
Vamos seguir viagem. Levamos um pouco de Coari com a gente.
Próxima parada: Codajás.
Texto e fotos: João Alves


