Diário de bordo — encerramento da expedição Amazônia das Palavras
Depois de Anori, a viagem seguiu rumo a Anamã, Manacapuru, Iranduba e, por fim, Manaus. Em cada uma dessas paradas, a programação encontrou novas formas de acontecer. Oficinas, encontros, apresentações, a presença do palhaço Xuxu, estudantes, educadores e comunidades ocuparam os espaços das escolas e das cidades com uma intensidade que não se repete, apenas se vive. A cada chegada, uma nova rotina se impunha. A cada saída, algo permanecia.
Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que esta expedição teve uma paisagem que não aparece nos registros oficiais. Há um tipo de presença que não se fotografa com facilidade. É como o boto-cor-de-rosa nos rios amazônicos: raros no olhar, mas fundamentais para o equilíbrio do que se vê. Não estão sempre à superfície.
Mas quando surgem, mudam a forma como a paisagem é percebida. Neste projeto, algumas pessoas tiveram essa função silenciosa. Estiveram por trás, por dentro e por todos os lados ao mesmo tempo. Sustentaram o que, de fora, parecia apenas programação.
Foram elas que garantiram que o projeto não fosse apenas execução, mas continuidade. O que chega ao público nasce muito antes do público perceber.
No barco, entre deslocamentos longos e dias que se repetiam com variações de cansaço, convivência e adaptação, a expedição exigiu mais do que planejamento. Exigiu resistência. Houve momentos em que parte da equipe não esteve bem de saúde. Ainda assim, a rotina seguiu. A responsabilidade de chegar às escolas, de cumprir a programação e de manter a entrega cultural falava mais alto do que o desconforto.
Entre as cidades, havia sempre um intervalo que não aparecia na agenda: o tempo de reorganizar o corpo, ajustar a energia, encontrar disposição onde já havia desgaste. Para quem estava na linha de frente da comunicação e também nas funções de apresentação à noite, esse esforço se multiplicava. Durante todo o dia, Phillipe, Mayson, Dayrel e Pedro faziam trabalho de registro e cobertura das atividades. À noite, o narrador deste diário, eu mesmo, tinha a necessidade de se reinventar como mestre de cerimônias, conduzindo públicos distintos a mergulharem na proposta do projeto, mesmo quando o corpo pedia pausa.
Na produção, nomes se tornaram parte estrutural dessa travessia. Marquinhos esteve presente em todas as camadas possíveis do processo, resolvendo o que surgia, ajustando o que mudava de última hora, mantendo o fluxo do que precisava acontecer. Marcelinho, Ângelo e Pirata (Michael Sullivan para os mais chegados, já que o apelido virou nome oficial) assumiram a montagem e organização dos espaços com precisão constante, garantindo que cada escola recebesse a estrutura necessária para a programação. Ângelo enfrentou um dos momentos mais difíceis da expedição ao ficar doente durante o percurso. Ainda assim, permaneceu presente no ritmo possível, retomando suas funções assim que houve melhora. Julinha, assumiu um papel que ultrapassou qualquer descrição inicial de função. Além da produção, atuou diretamente no cuidado com a equipe. Em diversos momentos, foi ela quem organizou soluções imediatas para imprevistos no barco e também quem acompanhou pessoas da equipe em situações de saúde.

No meio de tudo isso, houve também episódios que revelam a dimensão imprevisível de uma viagem desse tipo. Jorge Kopanakis, integrante da comunicação, foi mordido por um morcego durante o percurso. O susto coletivo deu lugar, depois, à necessidade prática de deslocamento e vacinação, mais um entre tantos ajustes que a expedição exigiu. E, novamente, a produção e a equipe se reorganizaram para que tudo seguisse em segurança.
Fora da estrutura imediata da viagem, mas fundamentais em todo o processo, as coordenadoras pedagógicas Antônia e Carmela, e toda a equipe pedagógica, também sustentaram outra frente do projeto. Enquanto a equipe delas ainda se deslocava ou descansava entre uma cidade e outra, elas já estavam nas escolas, preparando cada detalhe da recepção, alinhando espaços, conferindo logística e garantindo que os estudantes tivessem a melhor experiência possível.
Também é preciso destacar os oficineiros. Foram eles que deram corpo e sentido às oficinas realizadas ao longo de toda a expedição.
- Marcela Kopanakis
- Bete Bullara
- Eliane Gordeeff
- Claudio Roberto
- Dori Carvalho
- Emerson Alcalde
- Yaguarê Yamã
- Thiago Thiago de Melo
Cada um, a partir da própria linguagem, transformou encontros em experiências de criação. Abriram caminhos para que os estudantes percebessem que suas próprias vivências também podiam se tornar matéria de arte. A escuta, a adaptação constante e a disposição para recomeçar em cada nova escola marcaram profundamente o resultado do projeto.
A verdade mais honesta deste diário é que ele não consegue dar conta de todos. Não por descuido, mas por limite. Porque cada etapa desta expedição foi sustentada por um conjunto muito maior de pessoas. Equipe técnica, apoio, cozinha, embarcação, coordenação, educadores locais, parceiros em cada município. Gente que não aparece sempre nos registros, mas sem a qual nada do que foi vivido teria existido.
Se há algo que se repete ao final dessa travessia é isso: ninguém atravessa o Amazonas sozinho. E ninguém sustenta um projeto desse tamanho sem uma rede inteira de trabalho invisível, contínuo e coletivo.
E para organizar tudo, a gigante Fernanda Kopanakis, que pensou o projeto e colocou em prática.
Encerrar essa expedição em Manaus não significa apenas concluir uma programação. Significa olhar para trás e perceber que, apesar das dificuldades, algo foi plantado em cada escola, em cada encontro, em cada cidade. Sementes que não dependem apenas do tempo da viagem, mas do que cada estudante, educador, oficineiro e comunidade fará com aquilo que recebeu.
O Amazônia das Palavras volta já!
Texto: João Alves
Foto: Pedro Carrilho


