Codajás (AM) – Além do que se vê
Chegamos em Codajás ainda com o corpo tentando entender a velocidade dos dias dentro da expedição. Quando a viagem começa, a gente imagina que o tempo no rio corre devagar. Mas a verdade é outra. Os dias aqui parecem longos e intensos, como se cada parada condensasse semanas inteiras de experiências em poucas horas.
Codajás surge no caminho carregando um título que a antecede: Terra do Açaí. E faz sentido. Depois de ter eu mesmo experimentado, é impossível discordar. O açaí está por toda parte. Na economia, nas conversas, nas embarcações, nas histórias da cidade. Uma relação de pertencimento entre as pessoas e aquilo que nasce da própria terra.
Nossa programação do dia aconteceu na Escola Estadual Indígena Professor Luiz Gonzaga de Souza Filho. Mais um dia de corredores cheios, salas ocupadas e oficinas acontecendo simultaneamente. Aos poucos, a engrenagem do Amazônia das Palavras vai encontrando um ritmo próprio. A equipe já se entende no olhar. Cada um sabe onde precisa estar quando o dia começa a acelerar.
Dessa vez, a oficina que mais me atravessou foi a da Bete Bullara, sobre cinema em sala de aula. Talvez porque, trabalhando com comunicação, eu esteja acostumado a olhar para imagens todos os dias sem necessariamente parar para pensar nelas. E a oficina fazia exatamente isso: desmontava a ideia de que cinema é só entretenimento.
Bete falava sobre enquadramento, luz, escolhas. Sobre como toda imagem é uma intenção. Nada está ali por acaso. A posição da câmera, a iluminação no rosto, o silêncio de uma cena, tudo comunica alguma coisa. No fundo, era uma oficina sobre cinema, mas também sobre aprender a olhar.
E isso ficou muito evidente quando ela mostrou aos alunos como a mesma pessoa pode parecer completamente diferente dependendo apenas da luz usada numa fotografia. Um rosto comum virava acolhedor, ameaçador, triste ou misterioso sem mudar uma única expressão. Só a luz mudava.
Esse é um dos grandes desafios do nosso tempo: aprender a perceber o que está por trás das imagens que consumimos todos os dias. O que está além do que se vê.
Enquanto isso, pelos corredores, os estudantes reagiam com curiosidade genuína. Alguns tímidos, outros já querendo falar, perguntar, participar. Há algo muito bonito quando alguém percebe que pode interpretar o mundo por conta própria.
No meio da tarde, entre gravações e entrevistas, também conhecemos um pouco mais da cidade para além da escola. Codajás parece ter um ritmo próprio. Mais silencioso em alguns momentos, mais contemplativo. O rio continua sendo sempre uma espécie de centro invisível da vida amazônica. Tudo passa por ele.
À noite, a programação aberta novamente transformou a escola. A comunidade chegando aos poucos, as cadeiras ocupando espaço no pátio, crianças correndo, famílias inteiras acompanhando as atividades. E então Xuxu entra em cena mais uma vez.
É curioso perceber como o espetáculo muda completamente o ambiente. O cansaço do dia inteiro parece suspenso por alguns instantes. O riso vira linguagem coletiva.
Em algum momento da noite, olhando aquela movimentação toda, pensei que o Amazônia das Palavras faz exatamente isso: cria pequenos espaços de encontro em cidades que muitas vezes ficam fora dos grandes centros de circulação cultural do país. E quando esses encontros acontecem, algo se move.
Nem sempre é imediato. Nem sempre é visível na hora. Mas se move.
Terminamos o dia novamente voltando ao barco já tarde da noite. Equipamentos descarregados, arquivos organizados, conversas atravessando os corredores da embarcação enquanto seguimos viagem.
Amanhã, o rio aponta para outra direção.
Próxima parada: Anori.
Texto e fotos: João Alves


