Chegada a Coari (AM)
O dia amanheceu diferente. Céu fechado, chuva intermitente, um silêncio mais denso acompanhando o percurso. Ao longo da manhã e da tarde, o rio seguiu seu curso sob um tom mais cinza. A bordo, o ritmo mudou. Se ontem era de chegada e adaptação, hoje foi de organização.
Reunimos toda a equipe para alinhar o primeiro dia de atividades, aquele que marca, de fato, o início da presença do Amazônia das Palavras – Quarta Edição em terra.
Entre falas, ajustes e definições, um ponto atravessou a conversa com mais força: a necessidade de compreender a realidade local. Coari, como tantas outras cidades do país, enfrenta desafios complexos. A questão da violência aparece como um desses elementos, não como algo isolado, mas como parte de um contexto maior, que ganha contornos próprios quando olhado de perto.

E é nesse ponto que o projeto parece fazer ainda mais sentido.
Me veio à memória uma fala recorrente de Fernanda Kopanakis, coordenadora geral do projeto. Ela costuma dizer que, em tempos difíceis, é preciso articular com a arte. Olhar para a literatura, para a poesia, para o cinema, para a música, como quem se aproxima de uma fogueira em uma noite fria e escura. Ela fala também de chegar com “tochas em punho”.
Diante dos desafios que existem aqui, e que se repetem em tantos outros lugares, o Amazônia das Palavras não se coloca como solução, mas como possibilidade. Como um ponto de luz. Como um convite para que estudantes, educadores e a própria comunidade também possam acender suas próprias tochas e iluminar seus caminhos.
Chegamos a Coari por volta das 18h.
O barco agora está ancorado. Permanecemos a bordo, em preparação. Amanhã, o dia começa cedo e segue longo. Manhã, tarde e noite de programação.
A travessia, a partir de agora, deixa de ser só pelo rio.
Texto e fotos: João Alves


